As fotografias, os livros e o resto

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Catarina Braga, “Ensaios sobre a distância”, 2016.

AS FOTOGRAFIAS, OS LIVROS E O RESTO

Susana Lourenço Marques

Cada pessoa como um impressor e um editor, foi a expressão que William Henry Fox Talbot usou para compreender e fixar a união entre a fotografia e o livro afirmando, de modo pioneiro, o fotógrafo simultaneamente como produtor e como autor. A intensa experimentação técnica que se desenvolveu desde então, não apenas proporcionou inúmeras variações na poderosa articulação entre texto e imagem, como se tornou um instrumento fundamental para afirmar a autonomia e liberdade de um pensamento em imagens, no seio da história do livro.

Para o fotógrafo, a relação com esta forma de inscrição e migração das imagens representou, sobretudo, a possibilidade de uma efectiva influência na articulação e montagem do seu arquivo visual. Neste caso, e numa deriva frequentemente ligada à escrita, o livro transformou-se num espaço de figuração e criação de sentidos, no qual as fotografias, abandonando a sua latência, dilataram a sua portabilidade para serem vistas e lidas sem o vínculo e a exclusividade a um tempo e a um espaço.

No actual contexto de publicação fotográfica e no trânsito entre ecrã e papel, a concepção de um ensaio visual sob a forma de um livro ajusta-se, paradoxalmente, ao crescente interesse pela criação e pós-produção de edições de autor, numa próspera ligação entre a materialização do registo, fabrico e distribuição, e eco do que Jorge Ribalta ironiza ao actualizar o célebre slogan da Kodak: you press the button and you also do all the rest.1

Seguindo de perto este interesse e cruzando a tradição das técnicas de impressão que fazem a História da Fotografia com os processos de produção digital, no âmbito de Práticas da Fotografia2, é proposto o desenvolvimento de uma investigação artesanal, para a construção e montagem de um livro de fotografia, a par da criação de um projecto individual e original, onde se começa por compreender a diferença que a fotografia introduz no modo como se faz, como se vê, e o que se representa no interior de um livro.

A inexistência de um tema pré-definido, de hipotéticos conteúdos ou de uma encomenda específica, pretende impulsionar os estudantes para a necessidade em definirem o seu objecto de trabalho, perceberem o fazer fotográfico como extensão de um olhar singular sobre o que os rodeia, procurando metodologias adequadas à elaboração do projecto, antes mesmo de este se formalizar na cadência do livro.

Para deixar que o resto não seja apenas falta mas essência da montagem, todos os momentos de selecção, estudos de enquadramento, incorporação de inscrições gráficas ou arquivos e referências pessoais, adquirem especial importância ao longo do desenvolvimento do projecto3, confirmando a importância de um método acumulativo, dedutivo e especulativo na sua elaboração. As correspondências, analogias ou conflitos que as imagens criam entre si, o modo como se sequenciam e se induzem ligações, a mutabilidade dos formatos, o ensaio de distâncias e escalas ou as variações de ritmo que se experimentam entre as páginas, são objecto de incessante questionamento, entendendo que o fazer e o desfazer destas maquetas, mais ou menos imperfeitas, permite ir descobrindo uma contiguidade e uma fisionomia para os livros.

Em síntese, trata-se de criar um projecto que, com exclusividade, relacione o conhecimento e singularidade dos livros de fotografia com a história indivisual de cada estudante, insistindo numa praxis que actualiza modos de inteligibilidade e evidência física das imagens. É nesse contexto que estes objectos, de origem fotográfica, se revelam numa mostra pública, apresentada anualmente com o título As Fotografias e o Resto4, no Museu da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Provocando configurações distintas do plano fixo de cada publicação e revendo a disposição das páginas numa selecção que se amplia em exposição, é uma oportunidade para ensaiar um plano contínuo de imagens que se suspendem dos livros e promovem a sua livre e flutuante contemplação.

No contexto de uma Faculdade de Belas Artes, a prática fotográfica deve ser entendida numa relação transversal com os seus múltiplos campos de investigação, avivando a sua natureza intermédia e a sua tendência interdisciplinar, em conexão com o legado imagético, individual e colectivo, dos que nela estudam. Reflectindo sobre o agitado panorama editorial em que se debate a constância e a hibridez das bibliotecas e dos livros, importa afinal que esta série de exemplares únicos, excepcionais, auto-editados e por vezes inacabados, continuem a reclamar a materialidade de um pensamento em imagens e a experimentar a legibilidade e visibilidade fotográfica para que, parafraseando o historiador Horácio Fernández, se continue a fazer livros que são fotografias e fotografias que são livros.

Fevereiro 2017

 

1. Ribalta, Jorge (2009), «Molecular Photography» in Kelsey, Robin; Stimson, Robin, The meaning of photography. Yale, Yale University Press, 2009.

2. Especificamente no segundo nível desta unidade curricular, semestral, leccionada pela autora com este programa desde 2012.

3. As etapas do projecto são publicadas numa plataforma digital individual, gerida por cada estudante. O acesso é reunido e disponibilizado no blog de Práticas da Fotografia: https://esquerdadireitaesquerda.wordpress.com

4. O título As Fotografias e o Resto, seleccionado por votação entre outras propostas, é uma referência ao curso de Teoria e História da Fotografia leccionado por António Sena nas instalações da associação ether/vale tudo menos tirar olhos (Lisboa), em 1983. Complementado pelo extenso subtítulo a percepção da imagem fotográfica: o que vêem e como vêem as mãos, os ouvidos, a boca, o nariz, os olhos e o resto, propunha uma síntese bibliográfica e iconográfica da História da Fotografia, com o objectivo de expor problemas e ideias novas sobre as relações e resultados da fotografia com todos os sentidos: do olfacto à visão, numa análise da condição sensorial e perceptiva da imagem fotográfica.

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